Data: 02/10/2018 Tempo: 03min de leitura Categoria: Alimentação Visualizações: 95 visualizações
Por: Observatório da Gastronomia
A minha relação com a comida começa com a saudade de um paraibano de sua terra, de sua gente. Seu Pacheco, meu pai, é de Duas Estradas, município com pouco mais de 3 mil habitantes, localizado na microrregião de Guarabira. Ele foi o primeiro de seis irmãos a vir para o Rio de Janeiro na década de 60. Devo a ele a compreensão que tenho sobre o comer. Na mesa não faltava a comida do sertão. Dobradinha, sarapatel, pé de galinha enrolado com tripa, mocotó, buchada de bode, galinha ensopada, cuscuz, angu, bolinho de feijão guandu com farinha e carne seca com jerimum. Era a maneira concreta de matar as saudades. Em outubro, comemora-se o Mês do Nordestino, no Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, conhecido como Feira de São Cristóvão, em referência ao tradicional bairro da Zona Central do Rio de Janeiro. No dia 5 será inaugurada a mostra O Nordeste e sua gente!, que faz parte da série Origens Nordestinas – raízes do Brasil. O projeto pretende expor capítulos de representação história com as contribuições dos nordestinos na formação brasileira, na cultura popular, música, dança, literatura e, é claro, na culinária.
O curador da mostra, editor do Jornal da Feira de São Cristóvão e diretor executivo do Instituto Cultural da Feira, Gilberto Teixeira, conta que o reduto completa 73 anos em 2018 e ganha a exposição que promove um passeio pela região que começou o Brasil.– As raízes do Brasil, sem dúvida estão cravadas em terras nordestinas. A feira é um forte exemplo de unidade de tradição e de cultura regional – declara.

A realização é do Instituto Cultural da Feira de São Cristóvão. A feira e os mercados são os espaços privilegiados para conhecer os modos de comer, produzir e viver de uma região. E a de São Cristóvão converge essa multiplicidade de sotaques, cores e sabores. É, sem dúvida, um pedacinho do Nordeste no Rio de Janeiro. Por meio da comida, podemos fazer uma viagem por diversas origens e tradições populares.

Esse reduto é um dos lugares preferidos do seu Pacheco e sou frequentadora desde pequena. Assim, fui construindo, por meio da influência dele, uma visão sobre a alimentação que vai além de matar a fome, da satisfação em preparar, comer e compartilhar. Tem a ver com a origem, a memória e um gosto do qual não se quer desgarrar, porque este mantém vivo a presença do lugar.

Entre as receitas tradicionais preparadas pelo seu Pacheco, está a carne de sol com aipim frito. Meu pai lembra que quando a família tinha acesso à carne, fazia-se a salga, um método milenar de conservação. Mesmo sem geladeira, a peça durava por mais tempo.

Apesar do nome, a carne é pendurada no varal à sombra e fica da noite para o dia nesse “banho de lua”. No alvorecer, já está pronta para o consumo. A textura e a cor ficam semelhante à carne fresca, úmida e macia. Agora, o gosto tem um quê da terrinha.

Para acompanhar, é desejável uma boa porção de aipim frito e manteiga de garrafa. Pronto, está arranjado o banquete. Comer e cozinhar os sabores de sua terra natal é uma forma de manter viva as lembranças e transmitir as tradições.

Quem ficou com água na boca, na feira é possível comprar a peça da carne para preparar em casa ou saboreá-la em um dos restaurantes do local. A barraca da Chiquita – uma das mais antigas do pavilhão de São Cristóvão – é o nosso abrigo quando dá vontade de alimentar a alma com comida nordestina.

Se desejar conhecer mais sobre a história da feira e sua ligação com o Rio de Janeiro, a dica é o documentário Gente da feira: São Cristóvão, o Nordeste Carioca.

A mostra O Nordeste e sua gente! será inaugurada no dia 5 de outubro, a partir das 18h, no espaço Memória, dentro do Pavilhão. A feira funciona de terça à quinta, das 10h às 18h e nos finais de semana, das 10h de sexta às 20h de domingo. Se você estiver no Rio de Janeiro, vale ir.

Fonte: Pleno News – Por: Juliana Dias

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