Data: 27/07/2021 Tempo: 03min de leitura Categoria: Opinião Visualizações: 185 visualizações
Por: Queren Girardi

Atualmente mais da metade da população mundial vive em áreas urbanas e até 2050 espera-se que essa fatia chegue a 75% das pessoas. A dinâmica da urbanização traz consigo desafios complexos para os sistemas alimentares: pobreza, insegurança alimentar, mudanças no estilo de vida, produção e consumo de alimentos não sustentáveis estão impactando profundamente o bem estar nos centros urbanos. Além de consumir a maior parte do alimento disponível, os habitantes das cidades direcionam uma fração significativa desse consumo para produtos de origem animal e transformados, que demandam altos recursos ambientais e consolidam a agricultura e a pecuária entre as principais causas de emissão de gases do efeito estufa.

A necessidade de ter acesso a uma alimentação adequada é outra questão fundamental nessa esfera. Ainda que as cidades ofereçam mais alimentos, postos de trabalho e serviços sociais, estes benefícios não são igualmente distribuídos. Por exemplo, alguns bairros não oferecem fácil acesso a supermercados e feiras, caracterizando-se como “desertos alimentares”. O ritmo imposto pela vida urbana também diminui o tempo disponível das famílias para comprar alimentos e cozinhar suas próprias refeições, tornando frequente o consumo de fast foods e alimentos altamente transformados. Esses hábitos podem provocar o aumento de problemas como obesidade e doenças crônicas ligadas à alimentação, impactando diretamente a saúde das pessoas e gerando custos enormes para os sistemas sanitários locais. 

É consenso que os atuais sistemas alimentares são ineficientes em satisfazer de maneira sustentável esta crescente demanda de alimento. No entanto, por mais que as áreas urbanas sejam uma parte importante da insegurança alimentar global, soluções podem ser alcançadas explorando os recursos das próprias cidades e regiões em que estão imersas. É importante notar que os centros urbanos contam com uma concentração de recursos intelectuais, tecnológicos, de infraestrutura e de oferta de serviços que, articulados, podem ser poderosas ferramentas de transformação. Por isso, um crescente número de governos locais ao redor do mundo está reconstruindo seus sistemas alimentares através de políticas públicas inovadoras, que integram alimentação e nutrição nos planos e estratégias de desenvolvimento local. 

Florianópolis é um destes exemplos. A cidade integra a Rede de Cidades Criativas da UNESCO como Cidade Criativa em Gastronomia e dentro da Rede atua para qualificar e expandir o setor gastronômico local de forma sustentável e criativa. De diferentes formas, outras cidades têm se articulado para enfrentar os desafios que envolvem a alimentação nos centros urbanos: a cidade de Milão (Itália) criou o Food Policy Pact, um pacto entre prefeitos ao redor do mundo que voluntariamente se comprometem a trabalhar juntos para que seus cidadãos se beneficiem de sistemas alimentares locais mais sustentáveis, igualitários, seguros, inclusivos e acessíveis. Na França, a ONG “Let’s Food Cities” reúne 7 cidades do país que atuam para difundir boas práticas de alimentação sustentável através de cooperação descentralizada.

Iniciativas como essas mostram que é possível a partir da alimentação impulsionar outras políticas urbanas como saúde e nutrição, educação, emprego, turismo, gestão de recursos hídricos, adaptação às mudanças climáticas e bem estar social. Reconhecer o alimento como parte fundamental da identidade e do desenvolvimento de uma cidade é possuir uma ferramenta vantajosa para enfrentar os desafios urbanos e guiar as comunidades na direção de um ambiente mais sustentável, inclusivo e acolhedor. 

Para saber mais:

BCFN, MUFPP (2018) “Food & Cities. The role of cities for achieving the Sustainable Development Goals”

FAO. 2019. FAO framework for the Urban Food Agenda. Rome.

Florianópolis Cidade Criativa

Let’s Food Cities

Milan Urban Food Policy Pact

Por Queren Girardi – Gastrônoma pelo Instituto Federal Santa Catarina. Colaborou em iniciativas da Rede de Cidades Criativas da UNESCO e atualmente desenvolve produtos gastronômicos em um projeto de panificação internacional na Itália.


*o texto acima foi enviado voluntariamente para a seção Opinião do Blog do Observatório da Gastronomia.

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